A Mata H: Uma Obra que Desafia as Convenções da Literatura e que Corre o Risco de Inspirar a Ciência

Há um traço de coragem artística em A Mata H que aparece antes mesmo de qualquer juízo sobre os seus acertos e sutis imperfeições: o livro se recusa a ser pequeno. Essa talvez seja a sua primeira virtude substantiva, porque boa parte da ficção contemporânea, sobretudo quando quer parecer “séria”, aceita espontaneamente uma redução de escala. Reduz a imaginação para preservar o controle. Reduz o risco para não tropeçar em excesso. Reduz a tensão intelectual para não comprometer a fluidez. A Mata H escolhe o caminho inverso: ele quer ser romance de guerra, ficção especulativa, thriller histórico, fantasia geopolítica, ficção científica, fábula filosófica sobre identidade e, em alguns momentos, quase uma meditação escancarada sobre a impotência humana diante do tempo. A maior parte dos livros que tentam tudo isso ao mesmo tempo implode por megalomania ou vira apenas uma coleção de ideias agitadas. O que torna este romance interessante é que, mesmo quando exagera, exagera em direção a uma visão de mundo. Há, por trás de seu ruído, uma hipótese. E isso muda tudo.

A tese central que sustenta o livro é a seguinte: a história humana não é uma linha, mas uma zona de interferência, onde o sujeito não é uma travessia contínua, mas uma precariedade duplicável. E toda tentativa de impor ordem definitiva ao real, seja pelo poder, pela ideologia, pela religião ou pela técnica, esbarra naquilo que o romance apresenta como a soberania indomável do tempo. Por isso este livro não deve ser lido apenas como narrativa de ação com aparato conceitual. Seu verdadeiro motor é mais ambicioso. A Mata H quer converter o tempo em problema ontológico, político e civilizacional ao mesmo tempo. Quer mostrar que há algo de infantil na pretensão humana de governar o devir com exércitos, bombas, teorias e máquinas. E, talvez justamente por isso, escolhe uma forma narrativa que se fratura em vez de se alinhar.

A recusa da jornada do herói não é apenas estrutural, é filosófica

Um dos acertos mais nítidos do romance está em escapar da lógica da jornada do herói. É visível que o autor a odeia veementemente. Não se trata apenas de abandonar um molde narrativo já saturado, trata-se de recusar a metafísica implícita nesse molde. A jornada do herói, em sua versão mais vulgarizada a partir de Joseph Campbell, que em “O Herói de Mil Faces” (1949) sistematizou o monomito como estrutura universal da narrativa humana, pressupõe uma teleologia da formação: há um sujeito relativamente estável, um conjunto de provas, uma travessia, uma transformação e um retorno, como se o mundo fosse, apesar de suas dores, finalmente inteligível. A Mata H recusa esse conforto. O autor refuta essa teleologia e cria o que podemos chamar de teliologia: um novo conceito narrativo focado na agilidade, na não linearidade, num rascunho chiaroscuro, e na admissão do leitor como chave hermenêutica da história.

Sua narrativa é fragmentada, convulsa, feita de desmaios, colapsos, rasgos, mudanças bruscas de eixo, esquizofrenias de narração, infiltrações do passado no futuro e do futuro no passado. Em vez de nos oferecer uma estrada, o romance nos oferece um tabuleiro em explosão. Essa estrutura de puzzle não é ornamental. Ela é a forma adequada a um universo em que causalidade, identidade e sequência se tornaram precárias.

Isso aproxima o romance, ainda que por uma via intuitiva e nada acadêmica, de uma tradição moderna que compreendeu que a forma literária não pode permanecer intacta quando o mundo que ela pretende narrar se encontra ontologicamente fraturado. Virginia Woolf, em ensaios como “Ficção Moderna” (1925), já denunciava o romance vitoriano como uma gaiola realista inadequada à experiência interior fragmentada. William Faulkner, em “O Som e a Fúria” (1929), destruiu a linearidade temporal para mapear o colapso de uma família e, por extensão, de uma civilização. Samuel Beckett, em sua trilogia “Molloy”, “Malone Morre”, “O Inominável”, levou ao limite a dissolução do sujeito coerente. Não é difícil lembrar que o modernismo europeu inteiro nasceu de uma suspeita parecida: a de que a linearidade narrativa já não bastava para representar um mundo atravessado por inconsciente, aceleração técnica, guerra, urbanização e colapso de antigas continuidades.

Há algo, portanto, de modernista no gesto estrutural de A Mata H, ainda que sua temperatura seja muito mais a do thriller do que a do romance de introspecção clássica. A diferença crucial é que, aqui, a fragmentação não se aplica apenas à percepção subjetiva, ela se aplica ao próprio tecido objetivo do tempo. O exterior é que está rachado, não apenas o interior. O mundo é o transtorno.

O grande achado conceitual: reflexo temporal, não travessia temporal

Se eu tivesse de localizar o ponto em que o romance sai da prateleira do “interessante” e se aproxima do “singular”, eu o colocaria na ideia de reflexo temporal. Ali o livro encontra sua verdadeira originalidade, beirando a genialidade. Não estamos diante da viagem no tempo no sentido banal (de um corpo que atravessa épocas e continua sendo, em essência, o mesmo corpo soberano submetido a paradoxos de roteiro). A ficção científica convencional, de H.G. Wells em “A Máquina do Tempo” (1895) a Audrey Niffenegger em “O Viajante do Tempo” (2003), tende a manter o viajante como unidade íntegra: o que muda é o quando, não o quem.

A Mata H prefere algo mais inquietante: a hipótese de que o deslocamento temporal produz uma duplicação ontológica, uma espécie de segunda instância do mesmo ser, um reflexo que não é mera cópia, mas derivação autônoma. Em um momento-chave, inclisive, o texto explicita que o plano depende do reflexo de um certo personagem se tornar um ser independente de seu alter reflexo, podendo escrever seu futuro da forma que bem entender e até assumir o seu lugar.

A importância disso é enorme, porque a pergunta deixa de ser “como impedir tal evento histórico?” e passa a ser “o que constitui a continuidade de uma pessoa quando o tempo deixa de ser uma moldura neutra e se torna um dispositivo de clivagem do eu?”. O romance, nesse ponto, entra, talvez sem saber o nome técnico de todas as portas que atravessa, em um território que foi central para a filosofia analítica da identidade pessoal.

Desde Locke, em “Ensaio sobre o Entendimento Humano” (1689), a tradição ocidental debate o que faz de alguém a mesma pessoa através do tempo: a substância? A memória? A continuidade psicológica? A unidade do corpo? Derek Parfit, em “Razões e Pessoas” (1984), radicalizou essas dificuldades ao mostrar que duplicação, teletransporte e sobrevivência sem identidade estrita produzem problemas devastadores para qualquer noção intuitiva de “eu”, e que talvez o ego seja uma ficção mais porosa e divisível do que imaginamos. Sydney Shoemaker e Richard Swinburne, em “Identidade Pessoal” (1984), travaram debate semelhante entre continuidade psicológica e continuidade corporal. A entrada sobre “Personal Identity” (PI) de Eric Olson na Stanford Encyclopedia of Philosophy condensa bem esse universo de problemas ao articular o que chama de “critério biológico”, segundo o qual somos organismos animais persistindo por continuidade biológica: versão que o romance desestabiliza ao separar corpo e continuidade de modo radical.

O que A Mata H faz, com energia de romance e não com linguagem de tratado, é dramatizar essa perplexidade. E faz mais: substitui a fantasia infantil da volta ao passado por um problema mais maduro e mais sinistro. Não se muda apenas a história, muda-se a ontologia daquele que a tenta mudar. Por isso o livro ganha uma espessura filosófica rara em narrativas do gênero. Seu problema não é só causal. É pessoal. O terror do tempo, aqui, está em tornar o sujeito insuficiente para si mesmo.

Simultaneidade, duração, colapso da linha

Essa camada se aprofunda quando percebemos que o romance não trata o tempo como uma estrada segmentada em “antes” e “depois”, mas como uma espessura simultânea, quase uma matéria de sobreposições. A melhor tradição filosófica para iluminar isso talvez não seja a do tempo físico newtoniano, nem mesmo a relatividade einsteiniana (que já converteu o tempo em dimensão relativa ao observador), mas a de Henri Bergson.

Em “Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência” (1889), publicado em inglês como “Time and Free Will”, Bergson opõe a “durée” vivida ao tempo espacializado, isto é, à falsa ideia de que o tempo pode ser tratado como uma sequência homogênea de pontos justapostos, como se fosse uma régua. Para ele, o tempo vivido é qualitativo, contínuo, interpenetrado; não uma soma de instantes, mas uma duração espessa em que memória, consciência e mudança se atravessam inextricavelmente. Em “Matéria e Memória” (1896), Bergson vai além: o passado não desaparece, mas coexiste com o presente em camadas de memória que se contraem e se expandem segundo a atenção da consciência. William James, quase contemporâneo de Bergson, chamaria isso de “stream of consciousness” — a corrente de consciência que o romance modernista depois tentou capturar formalmente.

A Mata H não reproduz Bergson, evidentemente, mas parece partilhar, em sua imaginação narrativa, dessa intuição profunda: o tempo não é apenas aquilo que passa; é aquilo que se acumula, se dobra, se infiltra e retorna. Quando o romance alterna guerra futura, Viena de início de século, delírio, laboratório, trincheira, desmaio e conversa intelectual sem pedir licença à linearidade, ele está fazendo mais do que pirotecnia narrativa. Está insistindo em que o real talvez seja simultâneo demais para a disciplina cronológica com que tentamos administrá-lo.

Sob outro ângulo, o romance ecoa a física especulativa: o físico Julian Barbour, em “O Fim do Tempo” (1999), propõe que o tempo como fluxo é uma ilusão e que o universo consiste numa coleção de “agoras” imóveis — “Nows” — que apenas parecem se mover por conta da organização da nossa memória. Essa intuição, mesmo sem aparecer citada, ressoa no modo como A Mata H trata épocas distintas como camadas de um mesmo bloco (ou como ingredientes de um sanduíche cósmico superpodicionados), não como pontos numa corrida.

A ciência do livro é ousada porque prefere a convicção à timidez

Outra qualidade do romance, que seria fácil subestimar em nome de um policiamento “realista”, é sua ciência audaciosa. Não se trata de avaliar o livro como quem avalia um artigo submetido à “Nature” ou revisado por pares. O que importa numa ficção desse tipo é outra coisa: a hipótese é original? Ela cria um vocabulário próprio? Sustenta-se internamente? Produz a sensação de um impossível quase crível?

A Mata H consegue, em boa medida, responder sim a essas quatro perguntas. Seu uso de fótons, bósons, colisões, anéis, fibras quânticas, chips, reflexos temporais e engenharia de travessia não é apenas um amontoado de termos de laboratório jogados para performar sofisticação. Há ali um desejo real de inventar um mecanismo, de construir um modelo próprio para a anomalia que o romance quer encenar. Mais que um simples “e se?”, a obra, com inteligência e uma visão quase huxleyana, cria um assombro “quando?”. Quase como se o autor tivesse uma noção quadridimensional da realidade, desenhando o que a mente científica tridimensional ainda não consegue enxergar. A ficção científica “dura”, de Isaac Asimov em “A Fundação” (1951) a Greg Egan em “Quarentena” (1992) e “Permutation City” (1994), sempre soube que o rigor interno da hipótese, a coerência do sistema especulativo, vale mais do que a fidelidade ao consenso científico da época. É essa coerência interna que A Mata H persegue e alcança com louvor.

Isso me parece especialmente relevante porque a ficção especulativa cai com frequência em duas armadilhas opostas: ou se torna cientificamente burocrática, sacrificando imaginação em nome de um decoro técnico, ou se torna arbitrária, usando a ciência apenas como perfume verbal. O romance de Télio A.C. prefere um terceiro caminho, mais arriscado e mais literário: extrapola com convicção. E, ao fazê-lo, alcança aquele tipo raro de verossimilhança que não vem da prova, mas da densidade da hipótese.

Essa escolha tem ainda uma consequência simbólica. A máquina do tempo, ou do reflexo, não aparece como simples aparelho funcional. Ela é o emblema máximo da arrogância humana: a fantasia de converter o tempo em objeto técnico, submetê-lo ao cálculo, arrancá-lo de sua transcendência muda e torná-lo operável. O livro, contudo, é inteligente o bastante para não celebrar ingenuamente essa arrogância. A técnica abre o rasgo, mas não o governa. A máquina dá acesso; não concede soberania. Nesse ponto, A Mata H é mais heideggeriano do que parece: em “A Questão da Técnica” (1954), Heidegger já alertava que a “Gestell” (o enquadramento técnico do mundo) não amplia o poder humano sobre o ser; antes, revela o ser sob a forma de um desafio que escapa ao controle de quem o desencadeou.

O verdadeiro acontecimento histórico do romance: Viena como reator da catástrofe

O eixo mais original do livro, e ele de fato merece ser tratado como um dos seus centros interpretativos, é a originalidade de usar como pano de fundo não um evento específico, mas uma concentração histórica: várias figuras decisivas reunidas na mesma cidade, na mesma época. Certas cidades, em determinados momentos, tornam-se condensadores de futuro. Viena, no limiar do século XX, era uma dessas cidades.

O historiador Carl Schorske, em Viena Fin-de-Siècle: Política e Cultura (1961), analisou com precisão inigualável como a capital austríaca funcionou como laboratório de todas as crises da modernidade europeia: o colapso do liberalismo burguês, a emergência do nacionalismo de massas, a explosão das vanguardas artísticas, o nascimento da psicanálise, a crise da identidade judaica europeia. Schorske mostra que, em Viena, o político se convertia em cultural e vice-versa com uma velocidade vertiginosa, o que faz da cidade não um mero cenário, mas um reator. A Mata H herda essa percepção sem necessariamente citá-la.

O livro é esperto porque entende que, ao reunir Freud, o jovem Adolf, Trotsky, Stalin (sob o nome de Stavros), Rasputin, Martha Bernays e depois ainda fazer entrar Ada Byron Milbanke como elo genealógico entre ciência, literatura e computação, ele não está apenas montando um “encontro impossível” para espantar o leitor. Está dramatizando a coexistência embrionária de forças que depois reorganizariam brutalmente o século XX. A literatura já demonstrou exaustivamente que os anos vienenses de Hitler foram decisivos para a consolidação de seu antissemitismo e de seu ressentimento político, e não por acaso o futuro ditador cruzou a cidade no mesmo período em que Freud ali operava. A ficção do romance está, portanto, ancorada num dado histórico real: a copresença geográfica e temporal de forças que só teriam seus efeitos plenos décadas depois.

A entrada de Ada Byron Milbanke amplia essa camada. Ao vinculá-la explicitamente à descendência de Ada Lovelace, matemática do século XIX que colaborou com Charles Babbage na Máquina Analítica e é hoje reconhecida como a primeira programadora da história, o romance faz uma operação simbólica de longo alcance: insere uma genealogia feminina da técnica e do pensamento dentro de um universo dominado por guerra, ideologia e brutalidade masculina. Há aí um gesto quase corretivo, como se o romance intuísse que, diante do delírio viril da história, a inteligência feminina precisasse entrar não como apêndice moral, mas como eixo civilizacional alternativo.

Freud não entra no romance como adorno erudito, entra como chave de leitura

A presença de Freud é especialmente feliz. Historicamente, Freud viveu em Viena praticamente toda a sua vida adulta e se tornou uma das figuras intelectuais decisivas da cidade e do século. Mas o que interessa no romance não é apenas essa adequação contextual. Interessa o modo como Freud funciona como dispositivo hermenêutico. Diante de um romance em que o tempo se dobra, a identidade se bifurca e o real oscila entre travessia física, delírio, sonho, coma e colapso, quem melhor do que Freud para ocupar o papel daquele que pergunta se tudo isso não é também uma cena da mente, uma elaboração, um teatro interno? Quando o livro o aproxima do soldado vindo do futuro, ele não está buscando apenas prestígio de repertório; está convocando uma tradição inteira de suspeita sobre a transparência do eu.

Isso é decisivo porque impede que a ficção temporal seja lida de modo puramente mecânico. Em “A Interpretação dos Sonhos” (1900), livro que Freud considerava o mais importante de sua obra, ele demonstrou que o inconsciente opera com uma lógica radicalmente distinta da consciência: condensação, deslocamento, representação por imagens, inversão, ausência de negação e de temporalidade linear. O inconsciente, para Freud, é atemporal: nele, o passado não passa, ele retorna, desloca, se disfarça. É precisamente essa lógica que a estrutura narrativa de A Mata H parece mimetizar: não a do sonho como ornamento, mas a do inconsciente como regime de temporalidade alternativo.

Freud introduziu o conceito de “Wiederholungszwang” (compulsão à repetição), mostrando que o sujeito tende a reeditar traumas não para resolvê-los, mas porque o aparelho psíquico não consegue metabolizar o que foi vivido como excessivo. O romance, ao fazer do passado uma zona de retorno obrigatório e ao tornar impossível a tentativa de reescrevê-lo sem reproduzir outra forma de catástrofe, opera precisamente nessa lógica. Freud, então, é menos um personagem histórico do que um princípio organizador de ambiguidade. Sua presença lembra ao leitor que toda tentativa de dominar o tempo pode ser, ela própria, uma forma de repetição compulsiva.

O subtexto filosófico: identidade, ordem, caos, livre-arbítrio

A essa altura fica claro que o romance não pensa apenas a identidade, pensa também a relação entre ordem e caos, entre determinação e ação. Há uma frase recorrente, de sabor quase aforístico, que funciona como senha interna da obra: “A lentidão do justo é um convite ao caos; sua firmeza, ordem eterna.” Ela aparece como se quisesse condensar a obsessão moral do livro: o receio de que, diante do avanço da barbárie, a hesitação ética seja também cumplicidade histórica.

O problema, porém, é que o romance não entrega essa sentença em ambiente simples. Tudo à sua volta desmente qualquer confiança excessiva na ordem. O mundo do livro é tão instável, tão atravessado por simultaneidades e reflexos, que toda ordem parece provisória, e todo gesto firme parece condenado a produzir efeitos laterais imprevisíveis. Esse atrito é um dos pontos mais sofisticados da obra. Ela parece desejar ordem e, ao mesmo tempo, desconfiar radicalmente dela.

Nisso ecoa um problema clássico da modernidade política. Thomas Hobbes, em “O Leviatã” (1651), argumentou que somente um poder soberano absoluto pode conter o caos da guerra de todos contra todos, mas instalou, com isso, o germe de todas as tiranias do Estado total. Carl Schmitt, em “O Conceito do Político” (1932), radicalizou essa posição ao definir o político pela distinção amigo/inimigo e reivindicar o estado de exceção como fundamento real da ordem jurídica, formulação que o nazismo depois usou à sua maneira perversa. Hannah Arendt, em “As Origens do Totalitarismo” (1951), diagnosticou precisamente como o esforço de impor ordem total ao real, eliminando o contingente, o plural, o imprevisível, é a marca estrutural do regime totalitário. A Mata H entra nesse debate não pela via do tratado, mas pela via do pesadelo: ao mostrar que toda ordem temporal é necessariamente provisória, ele denuncia, por via negativa, o delírio de quem quer impô-la definitivamente.

Também por isso a obra roça o problema do livre-arbítrio. Se o tempo é simultâneo, se o sujeito é duplicável, se o passado pode ser interferido por reflexos derivados do futuro, o que sobra da responsabilidade individual? A tradição compatibilista sustenta que liberdade e determinismo não se excluem. O romance parece responder de modo diferente: sobra uma responsabilidade trágica, não soberana. Ninguém ali age fora das forças que o determinam, mas ninguém está inteiramente absolvido por elas.

A presença do jovem Adolf intensifica esse problema ao limite. O mal, ali, não é uma essência metafísica simples, é uma possibilidade histórica em incubação. O romance nos obriga a olhar para o momento anterior ao monstro consolidado e perguntar, com desconforto: o que exatamente estava sendo formado ali? Um homem? Uma ideologia? Um ressentimento? Ou um vazio apto a ser preenchido pela máquina da história? É a mesma pergunta que Hannah Arendt colocou de outra forma ao cobrir o julgamento de Eichmann: o mal não precisa de demônios, basta a banalidade.

Crítica ao fundamentalismo: o livro sabe que a barbárie é uma forma de simplificação

O ponto de partida de A Mata H não é uma guerra entre nações nem um conflito convencional entre Estados. É algo mais perturbador e, infelizmente, mais reconhecível: uma guerra catastrófica desencadeada por um grupo religioso extremista que não conquistou o mundo de fora para dentro, mas de dentro para fora. Essa distinção é central, e o romance a trata com uma lucidez que vai além do thriller de ação.

O livro denuncia um mecanismo que a história recente tornou familiar: o crescimento por infiltração. O extremismo religioso retratado em A Mata H não chega como exército convencional que cruza fronteiras com tanques. Ele se expande por dentro das sociedades, nas instituições, nas comunidades, nas famílias, nos sistemas de crença já existentes, até atingir massa crítica suficiente para produzir ruptura. É uma conquista que se disfarça de devoção antes de se revelar como dominação. O romance expõe esse processo com a consciência de quem sabe que o perigo mais grave raramente tem a decência de se anunciar.

O que o livro capta com inteligência é que o fundamentalismo não é apenas violência, é uma ontologia, um modo de organizar o real pela eliminação de tudo que escapa ao regime de sentido único. A pluralidade, a dúvida, a negociação, a coexistência: tudo isso é, para o fanático, contaminação a ser extirpada. Ele não tolera o tempo porque o tempo produz mudança. Não tolera o outro porque o outro é prova viva de que há mais de uma forma de existir. E não tolera a complexidade porque a complexidade exige renunciar à certeza absoluta, que é precisamente o único bem que ele possui.

Ao projetar esse tipo de força para um futuro em que ela finalmente produz o colapso definitivo, A Mata H faz o que a boa ficção científica sabe fazer melhor do que o jornalismo: leva uma tendência até seu limite lógico. Não prevê o futuro, extrapola o presente. A guerra catastrófica do início do romance não cai do céu, ela é o resultado de um processo longo, gradual e deliberado de expansão silenciosa que ninguém quis ver a tempo. E é exatamente esse horror consumado que obriga os personagens a recuar no tempo em busca de outra saída. Não porque acreditam que o passado seja controlável, mas porque o futuro, tal como está, já foi perdido.

Regionalismo: o livro acerta ao preferir rugosidade a folclore

Há outro ponto em que o romance revela autoconsciência: seu regionalismo. Anápolis, Goiânia, o cerrado, a linguagem militar misturada à oralidade local, o humor duro de tropa, a geografia do centro-oeste… tudo isso comparece com uma aspereza que evita o erro comum de grande parte do regionalismo de vitrine. O livro não tenta “vender” Goiás como exotismo interno nem como repertório pitoresco.

Ao contrário, usa o chão regional como solo efetivo da imaginação. O centro-oeste não é gracejo, é teatro da devastação, espaço de resistência, lugar estratégico e emocional do romance. Esse é um mérito importante porque impede a obra de cair no tipo de caricatura que transforma o local em número humorístico ou em apêndice folclórico da narrativa principal. O cerrado, inclusive, ganha uma função estética poderosa: produz um contraste particularmente forte com Viena, com a Europa, com o frio e o cinza da guerra reconfigurada. O romance faz o que pouca ficção brasileira de alta combustão se permite fazer: põe o centro-oeste não na margem da história, mas no centro do colapso planetário.

Isso lembra, em sua audácia centrífuga, o que José Saramago fez com Portugal em “Ensaio sobre a Cegueira” (1995): transformou um espaço periférico no centro absoluto de uma metáfora civilizacional universal. Ou o que Graciliano Ramos fez com o sertão em “Vidas Secas” (1938): não folclore da miséria, mas condição humana exposta em sua nudez mais radical. A Mata H opera numa chave diferente, épica e especulativa, não minimalista, mas partilha com esses romances a recusa de deixar o local ser apenas local.

Dr.ª Batista e a inteligência feminina como eixo de sentido

Outro aspecto que o romance merece em reconhecimento pleno é a centralidade da Dr.ª Batista. Ela não é apenas personagem funcional, nem só a cientista que aciona protocolos e viabiliza a máquina. Ela é uma espécie de consciência estratégica do livro, figura em que ciência, autoridade, cuidado truncado e tragédia pessoal se condensam. Em um romance dominado por violência masculina, guerra, bravatas, aviões e figuras históricas de testosterona imperial, a presença dela reorganiza a hierarquia interna da narrativa. É ela quem pensa, antecipa, calcula, insiste. É ela também quem encarna um dos nervos mais melancólicos do livro: a tentativa de enfrentar o colapso do mundo com inteligência, quando a inteligência já parece insuficiente.

A ligação genealógica com Ada Lovelace não é ornamento. Ada Lovelace escreveu, em 1843, as primeiras anotações sobre a Máquina Analítica de Babbage, reconhecidas hoje como o primeiro algoritmo concebido para ser processado por uma máquina, contribuição que foi sistematicamente subestimada durante décadas por razões evidentes de gênero. A pesquisadora Suw Charman-Anderson, em artigo influente publicado no “The Guardian” (2012), documentou como o apagamento de Ada Lovelace da narrativa da computação não foi acidental, mas estrutural. Ao recuperar essa linhagem, A Mata H faz um gesto de reparação histórica dentro do imaginário especulativo e afirma que a origem do pensamento computacional, eixo da tecnociência contemporânea, tem um rosto feminino que a história fez questão de esconder.

O “blockbuster” como forma legítima de pensamento

Talvez a formulação mais precisa para o livro seja esta: A Mata H acredita que “blockbuster” também pode pensar. E isso, num ambiente literário frequentemente desconfiado da escala, do espetáculo e da energia narrativa ostensiva, é refrescante. O romance (ou blockbuster literário) quer o estrondo do cinema de grande orçamento (caças, bombas, perseguições, bunker, confrontos históricos impossíveis, reviravoltas de alta intensidade), mas quer também o subtexto, a ontologia, a filosofia, a provocação histórica. Nisso, ele se aproxima mais de uma linhagem que passa por Umberto Eco em seus momentos mais lúdicos, especialmente em “O Pêndulo de Foucault” (1988), em que erudição e conspiração se retroalimentam em vertigem. Até mesmo lembra Philip K. Dick em suas crises de realidade (“O Homem do Castelo Alto”, 1962; “VALIS”, 1981), por alguns romances de Michael Crichton quando queriam dramatizar uma hipótese técnica de largo alcance (“Jurassic Park”, 1990), e até por certa imaginação tarantinesca do anacronismo histórico (a de “Bastardos Inglórios” (2009)), em que a história é reinventada sem cerimônia porque o delírio especulativo tem mais verdade emocional do que o documentário.

Poucos livros brasileiros se permitiram essa mistura com convicção. Em geral, ou sacrificam densidade em nome do evento, ou sacrificam energia em nome da legitimidade. A Mata H tenta preservar as duas coisas. O livro brasileiro raramente se autoriza a ser simultaneamente cerebral e pop. Quando o faz, costuma pedir desculpas. A Mata H não pede.

As reservas: onde o livro precisa de mais disciplina

Nada disso significa que o romance seja imune à crítica. A primeira reserva diz respeito à dicção. Em vários momentos, a prosa opera em regime quase contínuo de intensidade máxima. Há uma busca insistente por grandiloquência, por impacto, por inflamação verbal. Em doses certas, isso ajuda a criar a atmosfera apocalíptica e operística que o livro deseja. Em excesso, porém, reduz o contraste interno do texto. Quando tudo quer ser ápice, a curva da emoção perde gradiente. Alguns trechos ganhariam muito com mais contenção, mais respiração, mais coragem de deixar a cena produzir impacto sem que a frase precise sempre anunciá-lo. Cormac McCarthy, em “A Estrada” (2006), demonstrou como a sobriedade extrema da prosa pode amplificar, em vez de esvaziar, o horror apocalíptico: a cena nega o estrondo que a situação contém, e essa tensão entre forma e conteúdo é o que apavora.

A segunda reserva está na administração tonal. O romance alterna guerra, filosofia, humor de quartel, brutalidade histórica, melodrama familiar, misticismo e especulação científica. Na maior parte do tempo, essa mistura é precisamente o que lhe dá personalidade. Mas há trechos em que a transição entre esses registros parece brusca demais, como se o livro ainda estivesse negociando internamente a proporção entre suas naturezas. Isso não compromete o todo, mas às vezes produz uma sensação de desalinhamento rítmico.

A terceira, mais sutil, é que o romance por vezes confia tanto na força de sua hipótese central que deixa em segundo plano a elaboração mais delicada de algumas subjetividades. Não é um livro desprovido de personagens fortes; é um livro em que as ideias, as engrenagens e os choques históricos frequentemente se impõem sobre a nuance psicológica mais prolongada. Isso não é exatamente um defeito, corresponde à sua vocação épica e especulativa. Mas ajuda a explicar por que a obra impressiona tanto pela visão e um pouco menos, em certos pontos, pela intimidade. Thomas Pynchon, a quem A Mata H de algum modo ecoa em seu apetite enciclopédico, soube em “A Meiosis de 49” (1966) e “O Arco-Íris da Gravidade” (1973) manter o sujeito humano como nervo emocional mesmo dentro da arquitetura mais monstruosa e sistêmica. É um equilíbrio difícil, e nem sempre alcançado.

No fim, o que permanece é a ambição organizada pelo delírio

Apesar dessas reservas, o que fica depois da leitura não é a impressão de um livro descontrolado, mas a de um livro perigosamente ambicioso (e “perigosamente” aqui é elogio). A Mata H quer coisas demais para caber no formato mental da resenha protocolar. Quer discutir identidade sem abandonar a ação. Quer pensar o tempo sem abandonar a carne da guerra. Quer usar figuras históricas reais não como bonecos de prestígio, mas como forças em colisão dentro de um mesmo laboratório urbano. Quer transformar Viena num reator da catástrofe moderna e o cerrado numa linha de frente da história mundial. Quer propor uma ciência fictícia tão ousada que por um instante pareça uma descoberta clandestina esquecida entre arquivos militares e hipóteses impossíveis. Quer denunciar o fundamentalismo não apenas em sua versão mais reconhecível, mas como forma geral de simplificação homicida. Quer ainda ser espetáculo, e não tem vergonha disso.

Talvez esse seja o melhor elogio que se possa fazer ao romance: ele não aceita a divisão preguiçosa entre obra que pensa e obra que arrebata. A Mata H tenta pensar arrebatando. Nem sempre alcança com a mesma precisão tudo o que deseja, mas quase sempre alcança algo mais raro do que a precisão: alcance. Há nele imaginação de alta tensão, repertório potencial, instinto de grande forma e uma convicção pouco comum de que a literatura brasileira ainda pode se autorizar o excesso, o conceito grande, a cena monumental e a hipótese filosófica de longo alcance sem perder sotaque, chão e brutalidade local.

Em uma paisagem em que tantos romances parecem satisfeitos em ser discretos, A Mata H prefere a imprudência. E às vezes é exatamente da imprudência formal que nasce uma obra com pulsação própria.

No mínimo, este é um livro único e um manifesto sociopoliticofilosoficocientífico sem par na história da literatura. Um horror existencialista travestido de ficção científica.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top