A temporada de comerciais do Super Bowl de 2026 trouxe uma colaboração memorável entre a atriz Emma Stone e a plataforma Squarespace, explorando com humor absurdo um drama moderno: a disponibilidade de domínios na internet. A campanha, composta por uma série de vídeos interligados, mergulha na frustração de perder o próprio nome na web, utilizando o talento dramático da atriz para transformar uma situação burocrática em uma narrativa de angústia existencial e comédia ácida. A premissa gira em torno da tentativa de Emma de registrar seu próprio nome como endereço de site, apenas para descobrir que ele já pertence a outra pessoa, desencadeando uma sequência de reações exageradas que satirizam nossa dependência da identidade digital.
No vídeo Unavailable, tanto na versão teaser quanto na estendida, somos apresentados ao ápice do desespero da protagonista. A direção aposta em closes fechados e uma atmosfera quase onírica, onde Emma Stone implora ao universo – ou talvez ao suporte técnico – por uma chance de recuperar seu domínio. A performance oscila entre o trágico e o ridículo, com gritos e súplicas que lembram monólogos de grandes dramas cinematográficos, mas aplicados a algo tão trivial quanto um URL. A estética visual, limpa e focada nas expressões faciais, reforça a ironia da situação, destacando como problemas do mundo virtual podem parecer catástrofes pessoais desproporcionais.
A narrativa evolui para um formato de “serviço de utilidade pública” em A Message From Emma Stone. Aqui, a atriz quebra a quarta parede para contar sua saga de duas décadas sendo confundida ou bloqueada por outra Emma Stone que detinha o registro original. O roteiro brilha ao listar as alternativas absurdas que ela foi forçada a adquirir, como msstone.news ou msstone.condos, ridicularizando a fragmentação da presença online. Este segmento funciona como uma crítica leve à necessidade de acumular variações digitais para garantir um mínimo de relevância, servindo também como um aviso prático para o público sobre a escassez de nomes comuns.
O tom muda drasticamente em The Negotiation, onde a vulnerabilidade dá lugar a uma agressividade calculada. Neste clipe, Emma Stone aparece em uma negociação telefônica tensa com o atual proprietário do domínio. O diálogo é ágil e surpreendente, culminando em uma ameaça hilária e extremamente específica de transformar a vida do sujeito em um “buraco negro burocrático”. A menção a detalhes triviais, como o correio sendo desviado para um tal de Dale em Wisconsin, adiciona uma camada de especificidade que torna o humor ainda mais eficaz, mostrando a versatilidade da atriz em transitar do drama para a comédia de intimidação em segundos.
Essa sequência de comerciais consegue elevar uma mensagem corporativa simples – a importância de registrar seu site – a um nível de entretenimento que dialoga perfeitamente com a cultura pop. Ao centrar a ação na persona de Emma Stone e em seus “problemas de gente famosa”, a Squarespace cria uma identificação imediata, pois a frustração com logins e nomes de usuário indisponíveis é universal. A campanha não se limita a vender um serviço; ela constrói uma pequena antologia de esquetes que funcionariam perfeitamente dentro de um programa de comédia, provando que a publicidade pode ser inteligente, narrativa e genuinamente engraçada sem perder o foco no produto.
É impossível dissociar a atmosfera surrealista dessas peças publicitárias da longa e frutífera colaboração entre Emma Stone e o cineasta grego Yorgos Lanthimos. A estética visual adotada pela Squarespace, com seus ângulos de câmera desconcertantes e o uso de lentes grande-angulares que distorcem levemente a realidade, emula diretamente a assinatura visual vista em obras como Pobres Criaturas e A Favorita. Essa parceria transcende o cinema e se infiltra no comercial, permitindo que a atriz explore aquele registro de atuação muito específico – uma mistura de inocência e estranheza mecânica – que se tornou marca registrada da dupla. Ao trazer essa linguagem cinematográfica de art house para o intervalo do evento esportivo mais popular dos Estados Unidos, a campanha subverte a expectativa do público, transformando trinta segundos de venda em uma pequena extensão do universo peculiar que eles construíram juntos nas telas de cinema.


