A reinvenção dos mitos urbanos proposta por Alan Moore em Watchmen fragmentou a imagem heróica clássica, substituindo o otimismo das eras de ouro e prata por um niilismo sufocante. Situada em uma realidade alternativa onde os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã, a trama utiliza o assassinato do Comediante como o estopim para uma investigação que revela a fragilidade moral de vigilantes aposentados e a iminência de um holocausto nuclear. A narrativa se sustenta na precisão geométrica da arte de Dave Gibbons, que abandonou as diagramações convencionais para criar uma experiência de leitura densa, repleta de simetrias e simbolismos que exigem atenção total a cada quadro.
Personagens como o implacável Rorschach, o onipotente Dr. Manhattan e o estrategista Ozymandias não são apresentados como salvadores, mas como figuras quebradas que personificam diferentes correntes filosóficas e políticas. A ausência de onomatopéias e o uso de cores secundárias por John Higgins conferiram à obra um tom realista e desconfortável, elevando os quadrinhos ao status de literatura de prestígio reconhecida mundialmente. Publicada originalmente pelo selo da DC Comics, a saga permanece como uma crítica mordaz ao abuso de poder e à própria natureza do gênero de super-heróis, sendo leitura obrigatória para qualquer entusiasta do meio.
Hoje, o impacto de Watchmen expandiu-se para além das páginas, inspirando o filme de Zack Snyder e a aclamada série da HBO, que serviu como uma sequência direta para os eventos das HQs. Para quem deseja ter a obra física em mãos, a Panini Comics mantém diversas edições de luxo em circulação no mercado brasileiro, garantindo que o questionamento sobre quem vigia os vigilantes continue ecoando entre as novas gerações de leitores.
Curiosidade: No projeto inicial de Alan Moore, os protagonistas seriam os personagens recém-adquiridos da editora Charlton Comics, como o Questão e o Capitão Átomo. No entanto, a DC Comics vetou o uso desses nomes porque o roteiro deixaria os personagens inutilizáveis para futuras histórias convencionais, o que forçou Moore a criar versões originais que acabaram se tornando muito mais icônicas que suas inspirações.

