A estética sonora do Gorillaz surgiu como uma resposta audaciosa à saturação das boy bands e do pop fabricado no fim dos anos noventa. Idealizada por Damon Albarn, vocalista do Blur, e pelo quadrinista Jamie Hewlett, criador de Tank Girl, a banda virtual subverteu a lógica da indústria ao esconder seus músicos atrás de avatares icônicos: 2-D, Murdoc Niccals, Noodle e Russel Hobbs. O álbum de estreia autointitulado fundiu de forma hipnótica o dub, o hip hop e o rock alternativo, criando uma atmosfera urbana e sombria que se tornou a identidade visual e auditiva da geração MTV.
A construção desse universo transmídia permitiu que a banda explorasse colaborações improváveis, unindo nomes como Del the Funky Homosapien no hit Clint Eastwood e, posteriormente, lendas como Shaun Ryder em DARE. Através de videoclipes que pareciam curtas-metragens de animação, o grupo desenvolveu uma mitologia própria, onde os personagens virtuais viviam em locações fictícias como os Kong Studios. Essa abordagem vanguardista não apenas antecipou a era dos influenciadores digitais e avatares, mas também estabeleceu o Gorillaz como um projeto onde a experimentação artística sempre esteve acima da imagem física dos seus criadores.

Revisitar a discografia do grupo hoje, especialmente o aclamado Demon Days, é perceber como a fusão de gêneros proposta por Albarn continua soando atual e desafiadora. A obra completa e os documentários sobre os bastidores dessa jornada estão amplamente disponíveis em plataformas como o Spotify e o Apple Music, além do canal oficial no YouTube, que preserva todo o acervo visual da banda. O projeto permanece como um marco da criatividade nerd, provando que personagens de papel e tinta podem carregar tanta verdade quanto qualquer artista de carne e osso.
Curiosidade: O Gorillaz entrou para o Guinness World Records como a “Banda Virtual de Maior Sucesso”, mas a logística para shows ao vivo foi um pesadelo inicial. Na primeira turnê, a banda tocava escondida atrás de um telão que exibia as animações, o que gerou frustração no público e forçou a equipe a desenvolver tecnologias de holograma e projeção que seriam usadas anos depois.

