Existe um abismo estético entre o que assistimos hoje e o que foi produzido na década de 80. E não é apenas nostalgia; é técnica. Se você ligar a TV agora, vai ver obras visualmente limpas, polidas, mas muitas vezes estéreis. A transição para a animação 100% digital e a industrialização desenfreada do setor transformaram animes em commodities. A demanda explodiu, os prazos encurtaram e a “alma” do desenho se perdeu em meio a linhas vetorizadas e colorização automática.
A “Era de Ouro” dos anos 80 era diferente porque era física. Era suja, era real. Estamos falando de acetato, tinta acrílica e desenho feito à mão, quadro a quadro. Havia um peso na movimentação dos robôs e uma textura na luz que o computador simplesmente não consegue emular sem parecer artificial.
Se você quer entender o que a indústria perdeu no caminho para a modernidade, você precisa assistir Gunbuster (Toppu o Nerae!).
O DNA de Evangelion, antes de Evangelion
Lançado em 1988 pela Gainax, Gunbuster não é apenas um anime de robô gigante. É a prova máxima do que acontece quando se dá tempo e orçamento para artistas obcecados. Dirigido por Hideaki Anno, o homem que anos depois quebraria a mente de todos com Neon Genesis Evangelion, este OVA é uma aula de escala e direção.
Enquanto os animes de hoje tentam te ganhar pelo excesso de partículas brilhantes na tela, Gunbuster te ganha pela densidade. A trama começa com os clichês de colegial, mas escala para dobras espaciais e dilatação temporal com uma maturidade que falta na maioria das séries sazonais atuais. Existe até uma sequência tardia (Diebuster) feita nos 20 anos da Gainax, mas nada supera a textura orgânica do original.
O Peso do Legado
A história engana quem espera algo leve. Acompanhamos Noriko Takaya, uma garota que carrega o trauma da morte do pai — um almirante que sucumbiu em uma batalha contra alienígenas. Ela quer ser piloto para proteger a Terra e se vingar, mas a realidade é dura: Noriko é desajeitada, insegura e vista como uma fraude pelas colegas, que acham que ela só está ali pelo sobrenome famoso.
O contraponto é Kazumi Amano, a “Onee-sama”, o ideal de perfeição inatingível. A dinâmica entre as duas, sob a tutela brutal do “Coach” Ohta, forma o coração da série. Não é sobre o talento inato que vemos nos protagonistas shonen de hoje; é sobre esforço, calos nas mãos e o terror psicológico da guerra espacial.
Quem Deu Vida aos Personagens
A qualidade de Gunbuster também reside no elenco de voz, que trouxe uma intensidade teatral para a animação:
- Noriko Takaya: Noriko Hidaka (a voz da evolução emocional da série).
- Kazumi Amano: Rei Sakuma (a elegância e a pressão da perfeição).
- “Coach” Ohta: Norio Wakamoto (uma lenda, entregando a intensidade que o papel exige).
- Jung Freud: Maria Kawamura.
- Capitão Tatsumi Tashiro: Tamio Ōki.
- Smith Toren: Kazuki Yao.
Saia do ciclo de consumo rápido. Gunbuster são apenas 6 episódios, mas eles têm mais alma do que centenas de horas do que é produzido hoje em massa.

