Primeiro, a Netflix aniquilou o ritual sagrado das sextas-feiras à noite nas videolocadoras, substituindo corredores físicos de VHS e DVD pela conveniência imediata do streaming e decretando a extinção de gigantes como a Blockbuster. Agora, a história ameaça se repetir em uma escala monumental: caso a compra da Warner Bros. Discovery pela plataforma seja aprovada, esse movimento sísmico na indústria do entretenimento pode representar o golpe de misericórdia nas salas de cinema, correndo o risco de transformar a experiência coletiva da “sétima arte” em uma peça de museu, exatamente como fez com as locadoras de bairro.
Por que a fusão do algoritmo com um estúdio centenário decreta a morte da alma cinematográfica e o fim do entretenimento acessível.
Se você ama o cinema — o verdadeiro cinema, aquele da sala escura, da granulação da película e da visão singular de um diretor —, prepare-se para o luto. A recente notícia da compra da Warner Bros. Discovery pela Netflix não é apenas uma transação comercial de bilhões de dólares; é o toque de recolher para a era dos grandes estúdios e a vitória final do “conteúdo” sobre a arte.
A aquisição coloca sob o mesmo teto a história de Casablanca e Harry Potter com a fábrica de salsichas digitais que é a Netflix. O problema central não é o dinheiro, é a fórmula. A Netflix não produz filmes; ela produz ativos de retenção de dados. Suas produções originais são famosas por uma estética plástica, roteiros gerados para prender a atenção nos primeiros dois minutos e uma iluminação chapada que funciona bem em celulares, mas mata a atmosfera em qualquer tela maior.
Ao absorver um estúdio legado, o risco é a “Netflixização” de franquias históricas. O perigo é vermos o Batman ou o Senhor dos Anéis serem reduzidos a minisséries esticadas, escritas por comitês baseados em algoritmos de watch-time, sem a profundidade ou o risco artístico que o cinema exige. A Netflix opera sob a lógica do fast-food: consumo rápido, esquecível e desenhado para ser medíocre o suficiente para agradar a todos, mas sem alma o suficiente para marcar ninguém. Se essa compra se concretizar, o cinema deixa de ser um evento cultural para virar apenas mais uma miniatura no carrossel de um aplicativo.
O Assalto ao Bolso: O Preço do Monopólio
Como se o empobrecimento cultural não bastasse, prepare-se para o ataque direto ao seu bolso. A chegada dos catálogos premium da Warner, da HBO e do serviço Max à plataforma não será um “presente” para os assinantes, mas a justificativa perfeita para um aumento exacerbado e predatório nos preços dos planos.
Ao eliminar um de seus maiores concorrentes diretos e monopolizar o acesso a séries de prestígio como Game of Thrones, Succession e The Sopranos, a Netflix ganha carta branca para ditar valores sem medo de represálias do mercado. O custo astronômico dessa transação — somado à necessidade de sanar as dívidas herdadas da Warner — será inevitavelmente repassado para a fatura do cartão de crédito do usuário, transformando o streaming, que nasceu como uma alternativa acessível, em um luxo excludente e caro, similar ou pior que a antiga TV a cabo.
A Última Trincheira: A Lei Antitruste
No entanto, nem tudo está selado. Existe uma barreira colossal que pode impedir que este pesadelo cultural e financeiro se torne realidade: a Lei Antitruste.
Reguladores nos Estados Unidos (DOJ e FTC) e na Europa estão mais vigilantes do que nunca contra a formação de monopólios digitais. A fusão da maior plataforma de streaming do mundo com um dos maiores detentores de propriedade intelectual da história cria uma verticalização perigosa. Isso daria à Netflix um poder de mercado desproporcional, permitindo que ela sufoque concorrentes, dite preços abusivos e, pior, controle sozinha o que é ou não produzido em Hollywood.
Historicamente, os decretos Paramount impediram que estúdios fossem donos dos cinemas para evitar esse tipo de controle total. Embora a tecnologia tenha mudado, o princípio permanece: uma única empresa não pode ser a dona da produção, da distribuição e da exibição (streaming) de metade da cultura pop mundial. É provável que os órgãos reguladores vejam essa compra como uma ameaça à livre concorrência e à diversidade cultural, travando o negócio nos tribunais por anos.
Um Fio de Esperança
Apesar do cenário sombrio, há um ângulo que permite um otimismo cauteloso. Se a Netflix tiver a sabedoria de separar o “negócio” da “arte”, essa compra pode, ironicamente, salvar o legado da Warner. O estúdio tradicional estava afundado em dívidas e cortes de gastos que já prejudicavam seus filmes. Com o caixa infinito da Netflix, diretores visionários poderiam ter, finalmente, o orçamento e a liberdade que lhes foi negada nos últimos anos. Se a gigante do streaming entender que precisa do prestígio do cinema real para legitimar seu catálogo, talvez — apenas talvez — possamos ver uma nova era de ouro financiada pelo Vale do Silício.

